Crise do subprime de 2008, intervenção estatal e irracionalidade da ganância desregulamentada

A discrepância entre o valor acionário e o valor produtivo das empresas no capitalismo é abismal (principalmente  porque os acionistas não são dotados de informações simétricas e transparentes).  Esse conceito rejeita a teoria dos mercados eficientes.

As boas práticas de governança corporativa são um conjunto de normas que tendem a diminuir esse gap, dentre estas práticas, destacam-se: pontualidade na divulgação de balanços, número expressivo de gestores pertencentes ao conselho administrativo, pouca ou nenhuma participação estatal no capital da empresa, transparência e detalhamento das informações publicadas aos acionistas, uso de padrões internacionais consistentes na divulgação de relatórios, existência de uma auditoria interna e outra independente, entre muitas outras práticas.

Infelizmente, nos moldes de hoje, essas práticas não são tão utilizadas como poderiam. No tocante aos mercados secundários, o uso de derivativos que teóricamente seriam usados para hedge (controle do risco de um investimento realizando uma operação financeira contrária ao investimento principal) muitas vezes são praticados para alavancagem de riscos nas empresas. Os agentes financeiros criam pacotes de investimento mirabolantes que provavelmente nem o corretor que vende esses fundos sabe onde o dinheiro está sendo investido.

As seguradoras formam uma cadeia alimentar que já perderam de vista a atividade que estão assegurando. É correto afirmar que entre os pilares da crise de 2008 estão a Fannie Mae e a Freddie Mac, que possuíam o governo como suporte, mas será que se não houvesse apoio do governo, essas duas não teriam assegurado dívidas absurdas e insustentáveis?

A ganância desmedida evidenciada nos motivadores da crise do subprime não conseguiria ser contida sem a regulamentação das atividades voluntárias da salada mista de títulos negociados por agentes financeiros. Embora essa afirmação aparentemente contrarie liberdades individuais, ela na verdade protege a liberdade dos investidores para que estes estejam aptos para escolherem o tipo de investimento que consideram mais atraentes, impedindo a utilização de “máscaras” que prejudicam o sistema financeiro como um todo.

É preciso, acima de tudo, perceber a distinção entre regulamentar e apoiar, cabe ao Estado estabelecer regras, mas não servir de suporte para empresas em caso de falência, principalmente porque o auxílio a empresas que não estão beneficiando a sociedade nada mais é do que um mau direcionamento de recursos dentro da economia.

Mestre em Economia e Doutorando em Administração pela California International Business University. Atuou no mercado de capitais e derivativos entre 2004 e 2011 e como consultor nas áreas de Controladoria e Finanças do software de gestão SAP desde 2011 nas empresas: Applied Materials, Costco Wholesale, Anglo Gold Ashanti, Grupo Ferroeste, Tambasa, Usiminas, Eletropaulo, Celpa, Cemar, BRF, Leroy Merlin e Viapol. Curta a página MAM Economia no Facebook clicando na respectiva figura no menu direito da tela.

2 comentários

  1. A Aracruz, Votorantin e Sadia são exemplos de empresas que sucumbiram aos derivativos. Nos 3 casos o CFO eram ecnomistas, formados pela PUC.

    As empresas com CFOs formados em Administração, rejeitaram estes derivativos, por que aprenderam no curso de Estrategia Empresarial o conceito de Core Business, não ensinado em Economia.

    “Se quizerem especular com derivativos, srs do Conselho, o façam na pessoas física. Nosso Core Business é Frango, não especular com derivativos.

  2. Senhor Kanitz, é uma honra imensa receber um comentário seu no meu blog. Eu sempre lembro dessas 3 empresas quando penso em empresas utilizando derivativos para alavancagem. Muito obrigado pela sua presença e contribuição.

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