Compaixão, piedade e solidariedade. Uma análise do bolsa família.

Políticas econômicas por parte do governo devem valorizar a dignidade humana, sendo um serviço que dá condições às pessoas de andarem com suas próprias pernas. O bolsa família por exemplo é benéfico, no seu aspecto de retirar nossos semelhantes de situações de grande dificuldade, mas é perigoso no seu potencial de criação de dependência e de ser usado como artimanha eleitoreira. Representa a frase poética: “a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma”. Proponho formas de solidariedade vinculadas à produção, tema que tratarei em publicações posteriores. Sugiro a leitura do artigo abaixo para reflexão, nunca tive contato com o autor, mas seu texto me cativou muito.

http://www.webartigos.com/artigos/da-compaixao-a-solidariedade-uma-genealogia-da-assistencia-medica/10413/

A lógica da compaixão piedosa, por sua vez, compõe um jogo perverso e “desumanizante”, difícil de evidenciar, pois é uma prática muito arraigada e dissimulada em nossa sociedade ocidental, tendo como figura principal no século passado a dama de caridade, que tinha um estatuto de benfeitora divina em função de seus atos de ofertar esmola e filantropia. A dama de caridade vem sendo progressivamente substituída pela enfermagem, herdeira maior dessa lógica que muitas vezes ainda motiva suas ações no ambiente hospitalar.

O aspecto enrustido da piedade compassiva repousa no fato de que ela faz das práticas antagônicas e paradoxais, ou seja, em seu próprio bojo repousa a ambigüidade constituinte e estrutural de sua práxis, normalizando destarte, o fundamento para as relações dissimétricas que ela institui entre o benfeitor (dominante) e o assistido (dominado). Essa lógica dialética da luta eterna de classes instaura um exercício de poder de coerção e submissão, isto é, uma classe provedora, em uma analogia a qual, assemelha-se a um pai celestial e provedor, que fomenta subsídios para uma eterna dívida dentre o ajudante e o ajudado. Conquanto, assevere a manutenção de um estado de vínculos sociais dependentes, dissimulados ou escamoteados por um discurso de um pseudo-humanismo, pedante, desapaixonado e desinteressado. Nesse ínterim, indivíduos “assujeitados” procedentes de um processo dialógico de dissolução da subjetividade, tornam-se ínfimos objetos de troca para os astuciosos e astutos salvadores, os quais esperam a redenção na beatitude suprema do Criador, preconizada pelo embuste da condição de um escambo pós-moderno. Esses estatutos simbólicos de trocas filantrópicas, imbuídos de caridade, além de exacerbarem a servidão, obediência e dependência instauram ainda uma sensação de dívida e gratidão eterna pela caridade recebida.

Caponi ressalta que no ato do altruísmo capcioso existe uma sutil defesa de nós mesmos (egocentrismo-maniqueista), no intuito de nos libertarmos de um sentimento de “paura” que é ontológico a condição humana, pois o contratempo ou a penúria que assola nosso semelhante nos faz sentir impotência, perante a desgraça alheia e o temor de que o infortúnio possa nos acontecer, mobiliza possíveis atos de benevolência individualista. Ou seja, no cerne do ato de compaixão, não estamos sendo completamente generosos e desinteressados, pois estamos em socorro de nossa salvação, isto é, o homem não suporta ver a sua augúria refletida no espelho de um desvalido. Outro aspecto existente nessa atitude ardilosa de prover ao próximo permeia acerca de um fundo de vingança capeada, de sadismo, pois é preciso que o flagelo e a danação existam e aconteçam com o outro para que nós possamos nos aliviar de nossa própria angústia, ao mesmo tempo em que supomos que nos engrandecemos moralmente com nossa caridade. É por isso que o sentimento de compaixão, segundo Nietzsche (1987), reflete-se, na dor alheia sendo despojada do que ela tem de pessoal, de singular e irredutível, pois o compassivo julga o destino sem se preocupar em saber nada atinente as conseqüências e complicações interiores que a aflição tem para o outro. Ou seja, os atos de caridade, são impulsionados pelo júbilo sádico proveniente do espetáculo-masoquista e do altruísmo dissimulado.

Sandra Caponi através da leitura de Nietzsche (1987) e Hannah Arendt (1999) discute os conceitos de compaixão, piedade e solidariedade, nos estimula a pensar a elaboração de estratégias para transformar as intervenções em saúde. Estas, institucionalizadas com base na piedade e na compaixão, tendem a reproduzir mecanismos obscuros e cotidianos de coerção e controle, travestidos de humanismo. A piedade conduz à glorificação do sofrimento alheio. A compaixão legitima as desigualdades, isola, exclui o diálogo. Já a solidariedade é um valor que se funda na vontade de universalizar a dignidade humana, pressupondo uma desapaixonada comunidade de interesses com os infortunados. A solidariedade, realização de ações que beneficia o outro, pressupõe o reconhecimento deste como sujeito autônomo, que é capaz de fazer escolha.

O percalço da compaixão, quando se amplia e passa a fundamentar políticas de assistência, apregoa Caponi, é que ela permanece alheia ao diálogo e exclui a argumentação, pretendendo superar uma necessidade, pelo imediatismo-assistencialista.  Nessa conjuntura de uma sociedade fugaz, evanescente e volátil, onde os vínculos afetivos (sociais e libidinais) são efêmeros, o ente pós-moderno vive encapsulado, em sua redoma protetora. O sujeito contemporâneo busca uma “uterização”, ou seja, o mal estar de conviver em uma civilização, como nos alude Freud (1980) é demasiadamente penoso e frustrante, no que tange aos contatos interpessoais, a insignificância humana perante a natureza e o pavor da morte, isto é, a angústia da certeza da cessação da existência orgânica.

Nessa amálgama de sentimentos difusos e coletivos o indivíduo busca o retorno ao útero, onde se sentiria preservado e satisfeito, ou seja, novas relações duais e objetais se instauram, mediante uma configuração patológica de simbiose tardia com elementos artificiais que poderiam suprir a primeira falta inscrita no psiquismo.

O compromisso com a pessoa que sofre é fornecida pelo utilitarismo de Bentham e Stuart Mill Apud Dumont (1981), que faz da procura da maior felicidade para o maior número a medida para todos os atos. Um hedonismo dissimulado, ou seja, um ato é correto se produz as melhores conseqüências para o bem-estar humano.

Acredita-se no utilitarismo que o prazer ou bem-estar de um sujeito pode ser medido e comparado com o de outro. Como na cultura do individualismo e no estoicismo a “felicidade coletiva” só pode ser pensada como a soma das “felicidades individuais”. O problema passa a ser como fazer, com que a procura da “felicidade individual”, possa ser integrada nessa “felicidade coletiva”? A solução passou a ser criar instituições de controle (dispositivos estatais de domesticação e “docilização” do sujeito) capazes de vigiar e punir as condutas dos indivíduos, tentando padronizar o comportamento humano e relegando ao limbo todas as atitudes ou condutas destoantes.

Centrando-se na leitura de Foucault (2006), Caponi busca demonstrar como as formas piedosas de socorro e assistência paternalista, ocultam estratégias de coerção, mecanismos de emasculação individual e coletiva, e como ambos os discursos, o compassivo e o utilitarista, apresentam essa característica de atuar pela moralidade áulica, afirmando agir em conformidade com a ideologia e pelo nome do bem estar ou bem comum dos necessitados.
Nesse sentido, as instituições de assistência pública de saúde se fundamentam, faz dois séculos pelos critérios de bem-estar geral, urgência social e de felicidade e interesse comuns. Entrementes, desde os primórdios do assistencialismo-paternalista, sempre houve a mão santa da Igreja e sua celeuma concernente aos infortúnios que acometem os impuros, pois aqueles que aceitassem seus preceitos dogmáticos e doutrinadores seriam salvos pela beatitude suprema do paracleto da humanidade.

No que tange aos clérigos, suas ações, campanhas e programas são oriundos das certezas de que sempre atuam pela benevolência ou altruísmo. Uma política de assistência fundamentada sobre esses pressupostos prescinde de argumentos, exclui a palavra e emudece qualquer diálogo.  Tanto a ética utilitarista, quanto a ética compassiva religiosa são, por si só, “desumanizantes” e axiomáticas, pelo fato de colocarem os princípios religiosos acima dos sujeitos envolvidos, isto é, a salvação do benfeitor, consiste no auxílio prestado ao moribundo em sofrimento.

Está atitude unilateral e mesquinha, sedimenta a escravidão, fomentando a dependência e expurgando as decisões tomadas coletivamente com base no diálogo e argumentação, pois essas éticas consideram que os princípios religiosos ou de utilidade geral são os únicos a priori salutares e benéficos.
A assistência à pessoa que sofre, por vezes, é trazida pelo discurso tecno-científico, o qual abarca a ausência da paixão, que a suposição de objetividade e neutralidade da ciência desperta no homem moderno.

O desenvolvimento científico e tecnológico tem trazido uma série de benefícios, sem dúvida, mas tem como efeito colateral uma inadvertida promoção do “assujeitamento”. A imparcialidade oriunda da metodologia científica alude a uma formalidade padronizada e específica, cuja sua elementariedade estruturante e funcionalismo despótico, em seu seio, engendram uma eliminação do verbal, isto é, a exatidão da ciência não permite o espaço lingüístico e simbólico.

Esse cerceamento do verbal (Lingüístico) e dos símbolos (Simbolismo) procedentes de uma (des)ruptura entre o humano e o imaginário, ensejam a dicotomia paradoxal e ambígua homem/máquina. O preço que pagamos pela suposta objetividade da ciência é a eliminação da condição humana da linguagem.

O lado humano é constituído pela linguagem, ou seja, uma das prerrogativas do “humano” é a forma de externalizar seus pensamentos mediante a linguagem, a qual é transmitida pela inserção da cultura pelos sujeitos. A palavra é necessariamente pessoal, subjetiva, e precisa do reconhecimento no diálogo do outro, somente no contato interpessoal que a palavra é assimilada, enquanto mediadora do simbólico e real. A dimensão “mecanicista” da ciência e tecnologia far-se-á, portanto, na medida em que ficamos reduzidos a objetos de nossa própria técnica e objetos despersonalizados de uma investigação que se propõe imparcial e objetiva.

A ética utilitarista, assim como a compassiva, afirma os princípios acima dos sujeitos. Segundo Japiassú e Marcondes (1996), no utilitarismo, doutrina defendida por J. Benthan e J. S. Mill, as ações são boas quando tendem a promover a felicidade, más quando tendem a promover o oposto da felicidade. As ações, boas ou más, são consideradas assim do ponto de vista de suas implicações ou conseqüências, sendo o objetivo de uma boa ação, em consonância com os preceitos do utilitarismo, promover em maior grau o bem geral. Porém existe uma dificuldade em se estabelecer um critério de bem geral, ou seja, aquilo que pode ser benéfico para alguns pode não o ser em maior ou menor grau para outros. Além do fato de que essa doutrina aceita o sacrifício de uma minoria em nome do bem geral, e para a não-consideração das intenções e motivos nos quais, a ação se baseia levando apenas em conta seus efeitos e conseqüências.

Neste contexto o compromisso autêntico com quem está em sofrimento é propiciado pela solidariedade. A solidariedade abre uma perspectiva de humanização, pois ela somente se realiza quando a dimensão ética da palavra está colocada. Nesse sentido, segundo Caponi a solidariedade implica uma preocupação por universalizar a dignidade humana, que precisa da mediação das palavras faladas e trocadas no diálogo com o outro para poder generalizar-se. Como uma relação autêntica com o outro implica um mínimo de alteridade e aceitação da pluralidade humana como algo irredutível, o laço social “humanizante”, somente se constrói pela mediação da palavra.

É somente pela mediação da palavra trocada com o outro que podemos tornar inteligíveis nossos próprios pensamentos, anseios, temores e sofrimentos. Nossos sentimentos e sensibilidades só tomam forma e expressão na relação simbólica com o outro.

Nessa conjuntura, humanizar o âmbito institucional implica dar lugar tanto à palavra do usuário quanto à palavra dos profissionais da saúde, de forma que possam fazer parte de uma rede de diálogo, que pense e promova as ações, campanhas, programas e políticas assistenciais a partir da dignidade ética da palavra, do respeito, do reconhecimento mútuo e da solidariedade.

Mestre em Economia e Doutorando em Administração pela California International Business University. Atuou no mercado de capitais e derivativos entre 2004 e 2011 e como consultor nas áreas de Controladoria e Finanças do software de gestão SAP desde 2011 nas empresas: Applied Materials, Costco Wholesale, Anglo Gold Ashanti, Grupo Ferroeste, Tambasa, Usiminas, Eletropaulo, Celpa, Cemar, BRF, Leroy Merlin e Viapol. Curta a página MAM Economia no Facebook clicando na respectiva figura no menu direito da tela.

Um Comentário

  1. Oi Gente, estou fazendo uma visitinha por aqui.
    Gostei bastante do site, vou ver se acompanho toda semana suas postagens
    Gosto muito desse tipo de conteúdo um Abraço 🙂

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