Interesses do governo perante a taxa Selic

No Brasil, apesar do presidente do banco central ser escolhido pelo presidente da República, este tem autonomia para agir de forma independente, buscando em tese o aprimoramento das relações financeiras entre todos os agentes em busca de um sistema financeiro que beneficie a população.
Infelizmente, sabemos que mesmo que o governo represente a população, nem sempre este age em favor dos cidadãos, e em alguns momentos é mais importante para o Estado realizar um expansionismo em seus aparelhamentos do que de fato contribuir para a produtividade.

Além de escolher o presidente do banco central, o governo é também quem determina a taxa de juros inicial dos títulos públicos que são usados como garantia nos empréstimos interbancários (somente o título do tesouro LFT é vinculado à taxa Selic, todos os outros têm somente a inflação como variável). Os títulos públicos são também negociados no mercado secundário, chamado de open market (mercado aberto), no qual o banco central compra e vende títulos dos bancos a partir do nada, ele simplesmente credita ou debita a conta do compulsório do banco que está negociando o título sem haver fonte alguma do dinheiro usado para compra. É através dessas operações de compra e venda de títulos que o banco central mantém os juros básicos da economia, ou seja, os juros que são negociados na troca entre os bancos. A decisão do copom estabelece uma meta de rendimento (juros) dos títulos públicos, e a partir dessa meta todas as negociações por parte do banco central no mercado aberto são feitas.
Percebemos que todas as negociações do banco central envolvem títulos do governo, essa simbiose pode ser muito nociva à população quando as metas são definidas de forma irresponsável.
Resumindo toda a operação, o governo federal quando quer contrair um empréstimo, ele dá um papel (título público) em troca de dinheiro afirmando que depois de 10 anos por exemplo ele irá ressarcir o dono do título com o montante emprestado + juros + inflação. Um banco efetua o empréstimo comprando o título, o tesouro nacional recolhe esse dinheiro, e posteriormente o banco central pode comprar esse título na mão desse banco pagando uma taxa superior à ofertada pelo governo, alterando a relação entre demanda e oferta de títulos no mercado interbancário e portanto alterando o valor do rendimento que será pago pelos títulos já emitidos.

Portanto, quando o governo quer aumentar dívidas e por conseguinte, aumentar gastos, ele aumenta a taxa de juros, quando quer diminuir os gastos, ele a diminui.

A decisão do Alexandre Tombini foi a de que o governo não irá aumentar nem diminuir seus gastos a partir da taxa de juros, embora o momento de crise exija que haja contração de gastos, a sua justificativa é a de que a inflação poderia subir, o que aumentaria o valor dos títulos públicos da mesma maneira, por conseguinte aumentando os gastos do governo da mesma maneira. Como vimos, com exceção do título LFT, gastos do governo com títulos públicos = juros + inflação, aumentando qualquer uma dessas duas variáveis, os gastos relacionados à taxa SELIC aumentam.

Embora a decisão de manutenção da taxa Selic entre o presidente e os diretores do Bacen tenha sido de manutenção da taxa Selic, a expectativa é uma política de retração da taxa nas próximas reuniões, o que será muito positivo para o Brasil.

Mestre em Economia e Doutorando em Administração pela California International Business University. Atuou no mercado de capitais e derivativos entre 2004 e 2011 e como consultor nas áreas de Controladoria e Finanças do software de gestão SAP desde 2011 nas empresas: Applied Materials, Costco Wholesale, Anglo Gold Ashanti, Grupo Ferroeste, Tambasa, Usiminas, Eletropaulo, Celpa, Cemar, BRF, Leroy Merlin e Viapol. Curta a página MAM Economia no Facebook clicando na respectiva figura no menu direito da tela.

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