O espírito animal definido por Keynes e a volatilidade das ações de Eike Batista

Deixando de lado, nesta publicação, as eternas discussões de qual deve ser o nível de intervenção do Estado na economia, gostaria de tratar do conceito de “espírito animal” criado por Keynes fazendo uma breve associação entre o mesmo e o comportamento dos investidores que levou à ascenção e queda dos preços das ações das empresas do Eike Batista na década passada.

Segundo Keynes, o comportamento dos investidores não consegue somente ser medido quantitativamente pela soma de variáveis numéricas, ou seja, não é só porque balanços contábeis de uma empresa estão positivos, bem como existem expectativas ótimas de mercado para seus produtos, entre outras variáveis passíveis de medição indiquem aumento de ganhos da empresa, que de fato haverá crescimentos significativos de investimentos na mesma. Da mesma forma, preços de ações podem subir exorbitantemente mesmo quando todo o cenário onde a empresa está inserida aponte prejuízos vindouros.

Basicamente, a especulação não baseia-se apenas na medição das variáveis que podem fazer uma empresa lucrar mais, mas depende também da definição de “espírito animal”, que é o conjunto de comportamentos humanos baseados em seus instintos e emoções.

No final da década passada, Eike Batista havia tomado o posto de herói nacional, o único brasileiro a estar entre as dez pessoas mais ricas do mundo de acordo com a revista Forbes, um exemplo de empreendedorismo, otimismo e patriotismo, dando inúmeras entrevistas afirmando que a hora do Brasil havia chegado, e que o futuro de nosso país, bem como o de suas empresas era brilhante.

Eike conseguiu angariar uma gama enorme de recursos para empresas cujos prospectos financeiros não passavam de um tiro no escuro, prometia encontrar diversos poços de petróleo no país através da OGX, assim como extrair o chamado ouro negro de forma viável e rentável.

Com o fracasso da OGX, houve um efeito cascata de retirada de investimentos de todas as empresas do Eike, evidenciando que tudo não passava de um efeito dominó justificado apenas por níveis de confiança. No entanto, a confiança não era baseada em dados financeiros, macroeconômicos, ou análises de viabilidade dos empreendimentos, mas puramente na visão de super herói criada por ele para si mesmo.

Investidores estavam apostando no sonho de um Brasil melhor, no empreendedorismo brasileiro, na capacidade que nós brasileiros temos de crescer, graças ao eficientíssimo trabalho de marketing realizado por ele, onde houve uma associação generalizada de que o futuro de Eike Batista significava o futuro do Brasil.

Diante deste exemplo, e de tantos outros que mostram a disassociação entre o que acontece na bolsa de valores e o que de fato ocorre no mundo real, cabe ao leitor identificar se o mercado de capitais é movido simplesmente por variáveis quantitativas ou também pelo “espírito animal” presente entre os seres humanos.

Mestre em Economia e Doutorando em Administração pela California International Business University. Atuou no mercado de capitais e derivativos entre 2004 e 2011 e como consultor nas áreas de Controladoria e Finanças do software de gestão SAP desde 2011 nas empresas: Applied Materials, Costco Wholesale, Anglo Gold Ashanti, Grupo Ferroeste, Tambasa, Usiminas, Eletropaulo, Celpa, Cemar, BRF, Leroy Merlin e Viapol. Curta a página MAM Economia no Facebook clicando na respectiva figura no menu direito da tela.

3 comentários

  1. Marcelo Medeiros Bom dia ! A tão falada reforma da previdência é realmente benéfica para o Brasil. Ou é, somente para fortalecer entereses políticos a alguns investidores.

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